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Pertencer

      Ninguém nunca me entendeu muito bem. Talvez não tenham tido tempo para tal. Eu sempre fui aquele tipo de pessoa estereotipada, aquela que quase todos, não importa para onde eu vá, chamam de rica e estranha. Meu nome é Carly, tenho 16 anos e atualmente moro em Charlotte (a cidade mais populosa da Carolina do Norte, nos Estados Unidos). Eu falei "atualmente moro" porque eu sempre me mudo, nunca pertenço. E quando eu digo sempre, é sempre mesmo, mas não desde sempre. Isso começou quando eu tinha apenas 7 anos, e a minha adorada mãe morreu em um assalto a um super mercado enquanto fazia compras em Back Bay, o bairro onde morávamos em Boston, que na minha opinião, é o bairro mais bonito e nobre daquela cidade.
     Depois disso tudo mudou. Meu pai, que desde aquela época era vice-presidente de uma rede de fast food super importante no país, resolveu se mudar, para que eu não crescesse em um lugar que carregaria a sombra da minha mãe para sempre. Desde então ele virou o tipo de um "super supervisor", que passa um determinado tempo em estado para verificar se está tudo funcionando bem e o que pode ser feito para melhorar.
     Naquela época foi muito difícil para mim, eu tinha acabado de perder minha mãe, e em menos de um mês perdi todos os meus colegas de escola, e minha melhor amiga Alice também. Para uma criança isso foi muito difícil de entender e aceitar, mas como não tinha vontade própria, ia seguindo meu pai para onde quer que ele fosse. Nesses 9 anos que se passaram, vivemos em lugares muito diferentes. A primeira parada foi a Califórnia, o litoral do pacífico, contrário ao de Massachusetts onde morávamos. Na Califórnia moramos em San Diego, um lugar que deixou saudade e que me recebeu de braços abertos, lá fiz alguns colegas, mas nada muito duradouro, afinal vivemos lá apenas um ano e meio.
       Depois da Califórnia moramos em Austin, (no Texas, o estado da estrela solitária) e lá vivemos por pouco mais de dois anos. Foi em Austin que eu aprendi que as pessoas poderiam ser ruins. Quando cheguei lá, com praticamente 9 anos de idade, sem mãe e com um pai que quase nunca aparecia, as outras crianças começaram a me tratar de maneira diferente. Elas até se aproximavam de mim, e eu cheguei a participar de algumas brincadeiras, mas não era igual. Eu era um tipo de E.T., alguém que elas queriam conhecer, mas tinham medo de chegar perto demais. Eu sempre tive tudo o que quis (em aspectos materiais, é claro), mas nem por isso me considero uma pessoa feliz. A única coisa realmente boa que eu lembro daquele lugar é o Mike, um menino engraçado e gordinho da minha turma na escola, que mesmo sem a autorização dos pais, às vezes passava na minha casa para me visitar e me levava a lição quando eu ficava doente.
       Mas essa linda amizade acabou no exato momento em que meu pai (em apenas uma semana) resolveu se mudar de novo, e dessa vez fomos para Lima, Ohio. Naquela pacata cidade fiz dois amigos, Samantha e Eric, que assim como eu também eram um pouco excluídos da turma. Samantha era uma menina ruiva e muito baixinha, alguns achavam que ela era uma bruxa, outros um tipo de gnomo, por isso poucos eram os que falavam com ela. Já Eric era excluído por ser muito pobre e andar com roupas extremamente gastas, o que fazia com que os outros não quisessem aparecer ao lado dele. Esses dois amigos, que eu fiz no período de quase dois anos que passei em Lima, são os únicos que eu tenho contato até hoje. A amizade não é mais a mesma, é lógico, mas eu sei que com eles eu posso contar.
       De Ohio fomos para Las Vegas, em Nevada, e eu odiei aquele lugar. Odiei tanto que fiz meu pai sair dali em menos de um ano. Definitivamente não estava dando para mim, aquelas pessoas não escutavam, os adolescentes de 14 anos de idade com hormônios pulando de um lado para o outro eram cruéis. Eles julgavam, reclamavam, não entendiam como eu poderia ser desse jeito mesmo tendo tanto dinheiro. As meninas populares olhavam para mim como se eu não tivesse salvação... como é que eu poderia estar reclamando de ter uma casa enorme só para mim e a governanta? Como eu poderia ficar chateada com o meu pai quase não estar em casa? Esse é o sonho de todo adolescente, não é? E tudo piorou depois da festa que elas fizeram na minha casa sem o meu consentimento... meu pai voltou de Elko na mesma hora, e me flagrou com todos os supostos amigos fazendo o que quisessem dentro da nossa casa. Aquele foi o fim.
     De Las Vegas fomos para mais duas cidades, mas ficamos tão pouco tempo por lá, que nem vale a pena mencionar quais. E agora estou eu em Charlotte há apenas 9 dias, tentando me acostumar com mais uma nova casa, e com um desafio maior ainda: sair desse meu estereótipo amanhã, tentar fazer novos amigos e pertencer, eu quero é me encaixar. Porque amanhã? Bem, amanhã é o primeiro dia do ano letivo.

AUTORA: Camille Delduque 
Twitter: @MilleDelduque

PARTE 2: http://ashistoriasaleatorias.blogspot.com.br/2013/10/pertencer-parte-2.html

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